Como as famílias e a escola podem ajudar emocionalmente crianças e adolescentes durante a pandemia

“Era final de abril quando soubemos que iniciaríamos as aulas à distância. A partir daí, iniciamos os treinamentos e eu me preparei muito. Mas, no dia, nada funcionou. Tudo que eu sonhei em fazer não funcionava. Os alunos não me ouviam, o arquivo que era para eu compartilhar, não pegava… Eu comecei a ficar muito triste, os alunos começaram a me mandar mensagens carinhosas e eu acabei chorando. A aula acabou e tudo passou. Mas, uma aluna do 1° ano resolveu postar o que tinha acontecido em uma rede social dela. Às 23h ela me mandou uma mensagem avisando que tinha postado e que já tinha cinco mil curtidas. No outro dia, logo pela manhã, minha filha me mostrou que já tinha 144 mil curtidas. Eu virei uma celebridade instantânea. Dei entrevistas locais e em rede nacional, mas, hoje tudo volta a normalidade. O que não mudou foi o carinho dos meus alunos. Foi um gesto lindo de empatia e carinho. Eu volto para o anonimato, mas, o carinho levarei para sempre”.

O relato da professora do GGE, Débora Meneghetti, é um forte exemplo dos tipos de desafios, exposição de sentimentos e empatia que a pandemia trouxe para a realidade da Educação no Brasil e no mundo. Por isso, o depoimento marcou o início da Live do GGE sobre como as famílias e a escola podem ajudar emocionalmente crianças e adolescentes em tempos de pandemia. “A professora Débora se preparou, passou por um momento importante e foi acarinhada. Foi quando percebemos que estávamos no caminho certo e que poderíamos enfrentar esse momento difícil”, disse o gestor do Sistema GGE de Ensino, Leonardo Siqueira.

O tema da palestra foi conduzido pelo professor, doutor em educação e neuropsicólogo, Hugo Monteiro, que logo em sua apresentação levantou uma reflexão: “vivemos um tempo sem tempo. Um tempo em que experimentamos o sofrimento e aprendemos a como lidar com o medo, com a dificuldade, com o desafio e como viver melhor”. De acordo com o especialista, a Covid-19 precisa ser vista como algo que nos toca individualmente e coletivamente. Um novo tempo. Um tempo de reflexão, que nos provoca, principalmente, o sentimento de resiliência.

Dentro desse contexto, a escola e a família têm um poder muito importante. Segundo o professor Hugo Monteiro, esses dois ambientes estão sendo desafiados, principalmente, a trabalhar com a paciência. Este é o principal desafio do enfrentamento a pandemia da Covid-19 e todas as suas implicações. Durante a live, o especialista fez uma alusão à areia movediça afirmando que este momento difícil nos coloca em um chão movediço e, por isso, precisamos da colaboração para não afundar. Para isso, a paciência é a única estratégia viável para buscar ajuda, colaborar e sair da areia movediça junto com o outro.

A paciência é uma estratégia de sobrevivência em momentos difíceis. Ela nos chama a atenção para que possamos ver duas vezes o cenário de um modo diferente. Uma dificuldade que eu tenha, um desafio do cotidiano, se eu tratá-lo com impulsividade eu não consigo resolvê-lo. Mas, seu tiver paciência, se eu tiver uma condição mais misericordiosa, então, eu terei condição de desenvolver com mais qualidade, com mais cuidado aquele problema. A paciência é a grande virtude da humanidade. Exercitem a paciência com seus filhos. Não deixem que irritabilidade e o mau humor dominem esse momento. Façam da casa um espaço de interlocução”, orienta.

Para cuidar do próximo e ter paciência é preciso também ter o cuidado com as emoções. Trabalhar o lado socioemocional para enfrentar o momento que ultrapassamos. Sobre isso, o professor Hugo Monteiro afirmou que é preciso sempre trabalhar a união. Neste caso, uma alternativa pode ser a adoção de acordos, criando uma rotina colaborativa dentro de casa e evitando conflitos. “Vivemos um momento em que famílias precisam entrar em acordos. As pessoas têm direitos e deveres. Este é um momento de pensar que você tem sentimentos e precisa falar sobre eles. É um momento rico para conviver com os desafios da família. A família está desafiada agora, mas a família só sobrevive se você conseguir estruturar os sentimentos. E sentimento a gente só consegue estruturar se eles são identificados e se são falados”, pontua.

Dando sequência à live, Hugo monteiro explica que, a medida que você desenvolve o diálogo, você consegue desenvolver uma estratégia resiliente. Isso significa que você não vai fugir do desafio, mas, conseguir atravessar e sair do processo da melhor maneira.

A resiliência é um processo coletivo. Eu não consigo ser resiliente sozinho. O ambiente precisa ser resiliente. Resiliência não é subjetiva. Ela pressupõe que alguém irá ensinar o caminho. Você aprende a ser resiliente com a cultura com a qual está inserido. É muito do que vive a escola e a família. Os dois precisam estar juntos neste momento”, ressalta.

Por isso, tanto na escola quanto em casa, é preciso nutrir bem os sentimentos para manter viva a esperança.

Sem esperança a gente não consegue dar um passo”, diz Hugo. Uma saída para isso, é buscar boas memórias. “Imaginem para as crianças que estão dentro de casa, quais as memórias que ficarão da pandemia? Por isso, é preciso se construir memória boa. Trazer o riso, o humor, a leveza, a compaixão, a paciência, a misericórdia para dentro de casa”, enfatiza.

Dentro do ambiente escolar, mesmo o virtual, as atividades devem ser pensadas neste sentido de oferecer projetos que promovam a interação, o compartilhamento de informações e novas experiências. Este foi um dos pontos abordados pelo gestor pedagógico do GGE, Tayguara Velozo, que citou projetos que foram pensados e estão sendo desenvolvidos pelo GGE com este objetivo. Entre as propostas, existem os projetos extraordinários (Outbox Learning), como Inteligência emocional e Mindfulness, que ensina os alunos a lidar com as emoções; Encontro com pets, onde os alunos podem mostrar os seus animais de estimação e trocar informações; Meu Professor Mestre Cuca, que proporciona um momento diferente com os professores, abrindo a cozinha e trazendo os alunos para cozinharem junto com eles; E, ainda, o Tour Virtual, que promove excursões online para mostrar a riqueza de lugares nacionais e internacionais.

São exemplos do que estamos trabalhando, porque lá atrás precisamos discutir o que poderíamos trazer para as famílias neste momento. Em um momento tão difícil. Trouxemos esses projetos que tem dado certo, mas que, quando lançamos, vários pais questionaram. Porém, explicamos os nossos projetos, desafios e mostramos que estávamos tentando entrar em um equilíbrio entre o formal e o lúdico do estudo”, pontua Tayguara.

No caso da família, para encontrar esse equilíbrio, Hugo Oliveira explica que é preciso construir rotinas flexíveis, pensadas de acordo com a realidade atual. “Tem que haver a realidade de ouvir e experimentar. É possível organizar a vida dentro de casa com tarefas, com cooperação. Isso é atividade para trabalhar a mente. O papel da família agora é preparar as crianças para tocarem a vida para frente. Porque nós adultos é quem preparamos as crianças”, diz.

Sobre essa preparação e cuidado com os alunos, a gestora pedagógica do GGE, Anabelle Veloso, lembrou da importância da atenção com o emocional das crianças. Neste ponto, a gestora questionou sobre quais comportamentos são um alerta para os pais que estão em casa com seus filhos e a partir de quando é preciso recorrer a uma ajuda profissional. Em resposta, Hugo Oliveira, pontuou que alguns fatos funcionam como sinais de alerta. Entre eles, está o tempo passado demais na internet, crises de insônia ou sono em excesso, agressividade. Além disso, outros comportamentos são mais preocupantes como o silenciamento excessivo, crises de choro, insegurança e medo. Nestes casos, há necessidade de uma ajuda profissional.

A sugestão que dou é conversar com setor psicológico da escola (SOEP), por exemplo, para ver em que sentido pode ajudar ou procurar alguma ajuda relacionada à psicologia. Tem que sempre perguntar se o filho está bem e deixar que ele se expresse. Diante da rotina, você vai perceber como está este psicológico”, orienta Hugo, que faz outro pedido aos pais: não cobrem excessivamente. “Às vezes, o que parecia um adoecimento é só uma forma de querer dizer que ama ou de ouvir que é amado. Dentro de casa é mais fácil de abraçar, de acolher. Abrir espaço de discussões, de trocas. Ver um filme e conversar sobre o tema. Então, abuse dessas ações”, diz.

Os momentos em família se tornam, inclusive, um resgate necessário. Afinal, em muitos casos, o mundo virtual afastou as famílias. Ir a um passeio e ficar cada um em seu celular era, por exemplo, uma cena bastante comum de ser encontrada. “Por isso, é importante agora falar dos sentimentos, cooperar, dialogar, elogiar. Não é hora de rancor, mas, de plantar amor”, complementa o professor autor do Sistema GGE de Ensino, Hudson Ribeiro. Neste ponto, inclusive, Hugo ressalta que é um momento de cuidar de todos. “Permitam que a voz da criança, do adolescente, venha à tona. É uma polifonia do amor. São várias vozes que podem amar. Os adultos pensaram que eram donos do mundo, mas eles levaram o mundo para onde estamos agora. Então, é hora de ouvir a voz de quem não nos levou a para este canto, quem pode nos levar para outro mundo”, enfatiza.

Por fim, o especialista deixa uma mensagem sobre esperança, resiliência e gratidão.

Quem quer enfrentar a Covid-19 como uma grande inimiga, está metendo os pés pela mãos. A Covid-19 é uma alternativa de se descontruir violência para se construir resistência e resiliência. A sociedade do mundo todo precisa ver isso. Ter gratidão é compreender que a vida nunca está contra nós. A vida nunca é nossa inimiga. A vida é uma companheira. Não queremos extinção. Queremos um mundo de replantio. Podemos aprender a replantar. Replantem sentimentos, esperanças, cuidados. Compreensão é a grande estratégia para vencer!”.

Gostou do tema? Então, assista à integra da live com o neuropsicólogo Hugo Monteiro sobre como ajudar emocionalmente crianças e adolescentes durante a pandemia:

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